Postagens

Quando a ausência toca

Entrou em silêncio, seu rosto envergonhado fez questão de mostrar toda a sua timidez. Manteve-se quieta e com os olhos baixos o máximo de tempo quanto pôde. Em passos semi-rápidos, dirigiu-se ao primeiro banco da segunda fila de assentos – queria ouvi-lo e observá-lo de perto aquela noite. Ouviu a música, sentiu algo forte lhe incomodar por dentro – Seu rosto, logo foi tomado pelas gotas de suor que lhe escorreram – Sentia náuseas. Suspirou tentando manter o fôlego e a consciência. Quando a música parou, ouviu-o dizer: - Gostaria muito de ficar sempre em sua companhia, mas não sou de momentos, não tenho parte com aqueles que não me querem por inteiro. Seus olhos se encheram d’água e olhando para trás o viu sumindo. Sentia vontade de lhe perguntar; - O senhor volta?– Mas algo lhe impedia - sua indecisão lhe impedia. Ele, entretanto, lhe conhecia por inteiro e voltando-se a fitou dizendo; - tu sabes onde estou, foste tu ...

Baixe os olhos não...

Todos os dias, ela despertava do sono de forma leve, estranha e boa – Havia dias é claro, em que as manhãs não eram doces, contudo nada do que era amargo, duravam todas as suas primeiras horas de raios de sol. Vezenquando   era tomada por um toque que vinha de dentro dela e sentia a necessidade de colocar pra fora deixando que escorresse de seus dedos, as palavrinhas que lhe faziam tão bem. Noutras vezes, acordava longe desse toque, não sentia as linhas, nem tampouco lhe chegavam as letras, contudo, mesmo assim, o desejo de escorrer-se em estrofes lhe impulsionava a querer que algo lhe aquecesse por dentro trazendo toda aquela sensação mágica de pertencer as palavras de volta. Nesses dias, sentava-se ao sol, quem sabe ele poderia lhe aquecer os miolos, trazer as inspirações, desejava lá no fundo, ser uma árvore, teria inspiração sempre – falaria de pássaros, dos ventos bons do outono e dos Ninhos das aves, suas cores, formas, seu canto. N...

Do que se era

  - deus vamos combinar uma coisa? - fala filha... ( um suspiro lento e um sorriso leve) - você manda uns ventos e eu molhos os lábios de saliva e fecho os olhos! - para que minha menina? - pra você me tocar pai...   - Pode fechar os olhos e esperar os ventos então filha... Estou indo Fechou os olhos, embebeu os lábios de saliva e foi sendo tocada pelo vento     "Confiamos em teu infinito amor, pois só tu és o Deus eternos sobre toda terra e céu"

A carta que eu ensaiei por milhares de vezes

Ela possui um sorriso de Moça. Era o que eu sempre dizia - Moça, assim eu a tratei durante muito tempo, até surgirem àquelas outras maneiras de denominarmos as pessoas carinhosamente. Chamei-a de Ba-Bi, disso, daquilo, até de Namorada – e esse ultimo foi devido ao atrevimento dela. Sim ela é extraordinariamente atrevida. Foi com ela que aprendi a contar o tempo de um jeito diferente daquele ao qual eu estava inteiramente acostumada, aprendi marcar os dias e os momentos de sol e chuva e a gostar ainda mais de doces e todas aquelas guloseimas que nos enchem de gordura. Foi com ela que eu ri, ainda que com todos esses quilômetros entre a gente, por milhares de vezes nesse ultimo ano . Não queria, mas logo pra primeira nota do ano, me veio isso. Porque você me veio Moça, de um jeito diferente de todas as outras Moças e me conquistou pelo avesso. Hoje tenho por você uma ternura que não me cabe e continuo achando seu sorriso de Moça e esse jeito de Menina mulher que vo...

A voz que ninguém ouve

--> Há pouco tempo atrás, eu estava tentando compreender, quem ou o que é o Amor e o que ele pensa nas horas vagas, quando não está/mesmo estando, amando. Então em um dia estranho, me peguei fechando os olhos e tragando o ar com força, minhas vistas escuras clarearam e tudo que me lembro é do som da voz dizendo; Imagine você as cenas: Olhos cabisbaixos, lábios secos, por dentro um coração oco. Por mais que as veias bombeiem sangue o mantendo vivo, ele se sente cada vez mais fora do próprio corpo, a cada instante que marca no tic - tac do relógio, ele se sente mais morto e vivendo, chega a quase morrer por não saber como sentir a própria essência. Traga o ar, tentando desanuviar a cabeça cheia de desassossegos e injúrias. Nada adianta, se sente cada vez mais fundo, se perdendo mais, enquanto a vida acontece fora dos seus poros . Em contraponto, noto noutro, um estado contrário; Olhos emitindo uma luz intensa, lábios vestidos com um sorriso dançante, por ...

Feito um futuro a sua espera

“O que virá depois? - pergunto então para a tarde suja atrás dos vidros, e me sinto reconfortado como se houvesse qualquer coisa feito um futuro à minha espera” Caio F. de Abreu A tarde estava completamente cinza – a parede alaranjada que sempre infestava o céu durante aquele virar de dia não se fez presente, um vento frio tocou as folhas das árvores... - Rebeca fechou os olhos, deslizou a língua nos lábios e sorriu enquanto o vento tocava-lhe suavemente a pele, o vento frio, tornavam as maçãs de seu rosto rosadas. Todos os dias, naquele mesmo horário, quando o sol ia partindo atrás das coisas, Rebeca se permitia olhar aquele inicio e fim instantâneo que se misturavam. Ela ama o virar da tarde, aquele meio fim, meio inicio que tornavam duas coisas tão completas e mal divididas; tarde e noite. Rebeca possuía um olhar bobo, gostoso, de Menina que sabia de tudo que era coisa importante. Não tinha muita idade, gostava de fazer perguntas tortas, dessas que nem Deus...

Mordidas

"[...], você me provoca achando que não há perigo. Sem conhecer a força da minha mordida, o tamanho dos caninos, você me provoca, sem esperar a picada, sem saber que ainda não inventaram antídoto pro meu tipo de veneno."Caio Fernando Os lábios se falassem sem a língua, gritaria seus desejos de sentir a pele próxima A língua se estivesse só. Sem boca, lábios e dentes, anunciaria de algum jeito suas necessidades de ser acompanhada por muitos dentes . Não falo bobagens, não me entenda mal É que não convém. Para que serve qualquer boca, sem dentes e lábios e línguas? E os três, trabalhando juntos . . . Os lábios, colados na pele Os dentes entre abertos segurando a carne macia de forma doce E a língua tocando a pele no fundo, mordiscando junto e trazendo pro paladar de dentro Todas essas sensações que ninguém sabe nomear... Mordidas.