sexta-feira, 4 de março de 2016

J



Ao som Ellen Oléria, Natural Luz

Pensava nas flores que poderiam brotar de todas aquelas sementes que estavam guardadas dentro das pessoas e algumas folhas voariam com os ventos dos sentimentos bonitos de alguém também.

Júlia pensava nisso de manhãzinha, enquanto no fogão a água era aquecida para passar o café, cujo cheiro tomaria conta dos seus sentidos, lhe dando o prazer de saborear as manhãs com aromas em tons escurecidos. 
 
Doutro lado do tempo, as pessoas continuaram a guardar suas sementes de boas coisas e ao invés de fazer as manhãs florescerem, transformaram o dia amanhecido de Júlia em um acúmulo imenso nos olhos de sal e sangue, as ervas daninhas haviam tomado conta de tudo, o que ficara, era apenas dor e essa dor transformou Júlia em silêncio absoluto.

Dentro ainda do tempo de esperanças mortas e esquecidas, inúmeras outras Júlia(s), continuam amanhecendo e tendo então de simplesmente Resistir.

No som das manhãs que desabrocham doloridas no tecido de suas memórias, as Júlias ainda resistem, nesse tempo eterno que se chama refazimento.


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Ela



Ela ocupou vários espaços em mim. Foi minha melhor amiga quando outras pessoas confiaram meus segredos erroneamente e ela segurou a minha mão mesmo estando a quilômetros de distância em uma noite sem lua e sem companhia pra voltar pra casa. Tinha um jeito todo impaciente com as minhas enrolações, também pudera, eram enrolações.

Eu ainda tenho medo que ela desista e eu sinto que até hoje eu não a fiz compreender qual é o meu medo. Tenho receio de que ela desista de insistir em ser amiga de uma pessoa muda e problemática, que vive fazendo "drama" e passando mal durante a noite. Sinto medo principalmente que ela acredite que não compensou me confiar parte da sua vida e sorrisos, medo que ela considere que sou tão inútil e descartável, como sempre me senti, para todas as pessoas... Mesmo sabendo reconhecer algumas das minhas utilidades dentro das minhas relações.


Eu acredito nas mulheres, principalmente naquelas que ao longo da minha curta vida me inspiraram alguma coragem e esperança... Acredito na revolução diária que a gente constrói a medida que luta e acredita que um dia, por mais que demore, alguma coisa será diferente pra outras mulheres e terá tido validade toda a nossa luta.

Eu acredito nela, por isso sempre a encorajei quanto a tudo, artesanato, costura, artes em geral... Eu acredito mesmo nela e eu sei que ela tem um potencial incrível, seus conhecimentos são vastos e a medida que ela se desenvolve o leque de pessoas que conquista e afeta positivamente, só aumenta, eu quero que um dia ela perceba o quanto o seu jeito de conduzir as suas relações é revolucionário.

Eu acredito que eu sempre vou amá-la, não só porque eu sinto que amor não pega erva daninha, que ele não pode ser reduzido e um dia enfim minguar, mas porque eu acredito nos afetos que ela construiu em mim, nas pontes de acessos que ela moldou em mim em direção ao seu coração e que me fez a querer bem. Sinto que esse afeto não vai morrer alí na esquina, nem nos longos dias acumulados de silêncio e sal que se pintam entre a gente, eu sei que seja como for, ela sempre vai ocupar esse espaço de amor e cuidado que tenho por ela e isso me faz sentir gratidão.

Gratidão ao universo, as deusas e a tudo que trouxe ela pra mim, a pessoa que me afetou de maneira tão positiva e generosa e me encheu de sossego e esperança, uma esperança que me impulsionou a ir em frente, a voltar a ocupar os espaços de luta, de resistência e também de amor... Os espaços onde os afetos são sinceros e singulares e só fazem bem.

 Obrigada!
terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sonhos e pontes

Marina pensava no quanto de sal ainda precisaria comer com Ana, lembrava de ter lido ou ouvido da conversa de alguém que para se conhecer bem uma pessoa é necessário comer um quilo de sal com ela e desde então, toda vez que comia uma coxinha com Ana, Marina pensava em quantas gramas tinham nas pitadas de sal da receita, tentando desesperadamente encurtar o tempo, para poder enfim declarar; - Ana, eu lhe conheço, somos amigas inteiras!

Ana, gostava dos olhos de Clarice, do jeito que ela movia os ombros para trás e balançava o sorriso depois de soltar a fumaça do cigarro que segurava cuidadosamente entre os dedos longos, Ana gostava dos detalhes que Clarice possuía, de seus trejeitos e dos sons engraçados do seu riso tímido.

Dolores não gostava de ninguém, sentia os dedos doloridos sempre que pensava em afeto e como quase nunca pensava em nada, Dolores passava pela vida das pessoas com sua graça e frieza e ninguém quase nunca entendia nada das suas divagações e disparidades. Mas ela não se importava com o que ninguém pensava, observava a vida assim e lhe bastava.


Diga-se que as relações humanas são pontes, construções, como obras que são iniciadas em algum momento e duram praticamente uma vida para serem enfim completadas.

Acredita-se em muitas crenças que as diferenças que existem de uma pessoa para a outra, só existe para que possa existir a completude, como opostos que se dão bem porque um tem aquilo que falta no outro e vive versa. E muitas vezes chamam isso de amor, de metade da laranja.

Acredita-se também em outras crenças que pensar assim é absurdo e impossível, se existe completude e boa relação quando alguém supre a necessidade de outra pessoa, então não existe um laço de amor mútuo, mas de serviços e de conveniências, porque é muito fácil sentir algum afeto quando alguém está suprindo aquilo que falta em você. Chamam isso de jogos de interesses, muitas vezes.

A completude  pra algumas pessoas, acontece quando você se basta, quando não se precisa de um ser externo para se sentir inteiro, completo. E viver dessa maneira, permite que se extraia muito mais das vivências e das pessoas do caminho.

Marina errava ao tentar computar as gramas de sal que comia com Ana, fosse um ou dois quilos de sal que ela viesse a ingerir com ela em toda a sua caminhada, seria essa construção que lhe traria laços sinceros e fortes.

Todas as tentativas de criar algo, de desenvolver alguma coisa, como provocar algo como uma amizade, um afeto, um conhecer, não gera nada além da nossa própria distração, nos fazendo perder os detalhes do outro, nos fazendo perder o outro. Como o cigarro de Clarice que Ana lembrava dos seus trejeitos, porque ela não estava preocupada em conhecer Clarice, ela estava simplesmente conhecendo.

Dolores levou Ana até Marina, Marina acabou levando Ana até Clarice e todas essas três adoravam o silêncio e o jeito desmedido de Dolores ser incomum, sempre observando e absorvendo tudo, dolorida muitas vezes, demonstrava pouco seus afetos, mas todas sabiam que ela era muito sentimental e um pouco vingativa também. Todos os dias Dolores construía um pedaço de vida nas suas relações humanas, assentando tijolo por tijolo, colocando a massa, passando o esquadro pra tirar as bolhas de ar que se formam com o vento e a poeira. Não se importando com o quanto trabalho dê ou quantas vezes precise rever o lado do pincel que está usando ou a qualidade da tinta que está passando nas paredes, todos os dias, ela cuidadosamente constrói as suas relações com sinceridade, afinco e vontade de que essa construção se conclua em algo forte, duradouro, seguro, como coisas inabaláveis, que só são inabaláveis, pelas verdades que possuem dentro delas.

Quando você observar uma ponte que te ligue a alguém começar a se construir entre vocês, não se preocupe em sair correndo e pular da ponte tentando atravessar os pedaços que faltam, ao invés disso, edifique uma construção. Construa pedaço por pedaço das suas relações humanas, pra que quando você realmente acessar alguém, não exista o risco dessa relação ruir por não ter sido solidamente construída.
domingo, 1 de fevereiro de 2015

Sê livre



Marieta pensava nas compras que faria todas as semanas na feira que se fazia na praça aos domingos, compraria frutas frescas, legumes de excelente qualidade e cuidadosamente levaria pra casa as especiarias de que a Amante gostava.

Em sua memória, existia uma gaveta onde ela delicadamente cuidava de depositar os nomes das hortaliças e dos temperos preferidos de sua namorada.

Marieta desejava sair da casa dos pais, e possuir uma casa, um apartamento, um canto que fosse seu, onde ela pudesse viver com Júlia, a namorada que estava ao seu lado havia pouco mais de um ano.

Marieta a amava e sentia um ciúme imenso dela. Não a proibia de nada, dizia sempre, mas no fundo das suas rasuras internas, ela adoraria que Júlia não fizesse coisas que a aborrecia.

“Vaidade, de vaidade, tudo é vaidade”, diz Eclesiastes no Velho testamento da bíblia cristã, - e o ciúme possessivo, o que é, senão, vaidade?

Amor, Marieta descobriria com o tempo, nada tem haver com vaidade, com decorar os gostos da outra e realizá-los, enjoar a pessoa de tanto a satisfazer,

Amor tem haver com Liberdade, com deixar a porta aberta, com permitir que a outra ande descalça e vá percebendo que embora ela ame as hortaliças, você não toma chá com ela! 

E que também, Júlia não combina com Marieta, não pela sonoridade dos nomes, mas pela vaidade, pelo ciúme, pela posse, pela opressão.

Amor é leveza, é liberdade, nada tem haver com vaidade.

Só é Amor se te liberta, 
do medo de ser inteiro e do outro.
segunda-feira, 28 de julho de 2014

Hoje

Pensei nas fadas que insistentemente, você tentava me convencer que existiam.

Você virava os olhos, citava Caio e falava sobre as histórias da sua infância com amigos imaginários e seres duendes.

Eu dizia que não acreditava e você insistia. Dançamos essa valsa por quanto tempo?

Alguns diriam pouco. Outros que durou foi muito! Eu fico com a frase de sempre; Não existe muito ou pouco, existe o tempo e Nós tivemos o nosso.

"As fadas também existem baby", eu queria concordar com vocês, mas a minha discórdia fazia a gente conversar tanto sobre o amor, quando você se justificava; - se as fadas não existem o que é o amor então menina?

Ainda me lembro de você dizendo que milagre mesmo era o amor... Porque os homens são de dar ódio. E sim, antes que escreva perguntando, eles ainda me assombram e passei a concordar com você. Milagre é mesmo amar.

Agora pergunto então à ti;

- as fadas, Elas dormem onde?

Quero ir te ver dormir moça!

P.s. ouvindo mawaca

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Sobre sexo e meninas invadidas

O que é que passa então nos tecidos da pele da mulher, da menina, devo dizer até?

Sente medo. Desejos. Prazeres e desassossegos.

Às vezes, se pode pensar que na pele de qualquer moça, essas sensações se escorrem. O que seria loucura é dizer que elas sentem e se comportam do mesmo jeito dentro dessas sensações.

A menina, que era menina ainda, tinha idade de mulher jovem. Desejos de mulher jovem, mas, marcas de feridas imensas.

E o sexo que há meses atrás fora amigo, natural, fácil e bom, agora lhe assustava.

Pensava que seria fácil, que estar com quem se ama fosse o suficiente pra espantar os fantasmas... As marcas, os medos...

Tentava, mas, não conseguia soltar os dedos, os desejos, os lábios.

Existem terapias que ajudam a mente. Mas quem pode conversar com a pele?

"Alguns infinitos são maiores que outros"

Dias caóticos, dias extraordinários
Dias compostos por Momentos caóticos e Momentos extraordinários

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Não há tristezas permanentes, nem tampouco alegrias permanentes o que há é o valor que se dá há dores e prazeres, é isso que determina se parecerá feliz ou triste, e às vezes é esse empenho, essa buscar por estar bem que fará com que fique realmente Bem

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Na minha mente algumas vidas se misturam... Algumas pessoas se misturam... Alguns cenários se confundem

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Eu sei quem eu sou
Quem eu posso ser

Só não sei exatamente o que as pessoas individualmente desejam que eu seja

Alguns desses desejos talvez se encaixem com o que eu posso  e quero ser, mas outros não

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Mas seja como for eu viverei todos os infinitos que os caminhos me trouxerem

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domingo, 13 de julho de 2014

Sobre encontrar e perder Parte III

O Menino, todo sem jeito tentava deixar sair da garganta suas interrogações.

- Você é mesmo Deus?

- Sou sim menino. Porque a dúvida?

- Você devia estar lá do outro lado do rio, fazendo coisas boas, mudando a desordem em que a terra está. O mundo está em caos e o Sr. Está aqui, pegando peixes Deus!

- Sabe Menino, eu não criei a humanidade pra alterar a ordem das coisas naturais das suas vidas. Eu os criei pra me relacionar com vocês. busco isso com a humanidade, um relacionamento.

- Não, mas como é que a gente vai se tornar santo se você não interferir Deus? É impossível!

- Não quero que se esforce pra ser santo Menino, quando amamos alguém e nos relacionamos com essa pessoa a mudança é natural. Você vai ficando parecido com a pessoa que gosta e com o tempo você naturalmente para de fazer coisas que ela não goste, que a magoe. É assim, que o amor muda o mundo Menino. Agora vamos ficar quietos se não os peixes não vem.

O menino não tinha mais o que questionar, precisava analisar as respostas de Deus. Resolveu voltar pra outra banda logo depois de comer o peixinho preparado por Deus. Voltaria outro dia pra continuar a conversa.

A remo. Atravessou o mar e ao chegar na outra margem achou-se todo confuso.

Deus tocava tambor na roda que se fazia na praça.


terça-feira, 8 de julho de 2014

Sobre encontrar e perder - parte II

Então Deus, enfiando os pés na areia se dirigia ao barco preso na margem

O menino olhava. Deus todo calmo, o mundo em caos e ele indo pegar peixes.

Deus era doido. Tinha constatado.

- Ei Menino, você não vem?

Foi andando devagar, olhos calmos e entrou no barco tomando os remos.

sábado, 24 de maio de 2014

Sobre encontrar e perder


O Menino havia passado anos observando toda aquela imensidão salgada que na outra margem apontava o céu. Queria mesmo atravessá-lo nem que fosse a remo.

Precisava falar seriamente com Deus.

Na manhã suja, vestida de nuvens que dançavam no céu, o menino entrou no barco a vela - tomou os remos em suas mãos de menino, atravessou lentamente todo aquele mar e encontrou-se finalmente com Deus.

Com um suspiro breve, e as mãos macias da areia Deus lhe sorriu de costa e de forma quase macia lhe disse.

- Oi Menino, finalmente você chegou! Mas porque afinal você veio?

- Olá deus, vim porque preciso falar seriamente com você.

Deus deu gargalhadas e depois - tornando o semblante sério, lhe disse;

- Vieste no lugar errado Menino, eu não falo sobre coisas sérias e perguntas tortas. Estou indo pescar!