terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sonhos e pontes

Marina pensava no quanto de sal ainda precisaria comer com Ana, lembrava de ter lido ou ouvido da conversa de alguém que para se conhecer bem uma pessoa é necessário comer um quilo de sal com ela e desde então, toda vez que comia uma coxinha com Ana, Marina pensava em quantas gramas tinham nas pitadas de sal da receita, tentando desesperadamente encurtar o tempo, para poder enfim declarar; - Ana, eu lhe conheço, somos amigas inteiras!

Ana, gostava dos olhos de Clarice, do jeito que ela movia os ombros para trás e balançava o sorriso depois de soltar a fumaça do cigarro que segurava cuidadosamente entre os dedos longos, Ana gostava dos detalhes que Clarice possuía, de seus trejeitos e dos sons engraçados do seu riso tímido.

Dolores não gostava de ninguém, sentia os dedos doloridos sempre que pensava em afeto e como quase nunca pensava em nada, Dolores passava pela vida das pessoas com sua graça e frieza e ninguém quase nunca entendia nada das suas divagações e disparidades. Mas ela não se importava com o que ninguém pensava, observava a vida assim e lhe bastava.


Diga-se que as relações humanas são pontes, construções, como obras que são iniciadas em algum momento e duram praticamente uma vida para serem enfim completadas.

Acredita-se em muitas crenças que as diferenças que existem de uma pessoa para a outra, só existe para que possa existir a completude, como opostos que se dão bem porque um tem aquilo que falta no outro e vive versa. E muitas vezes chamam isso de amor, de metade da laranja.

Acredita-se também em outras crenças que pensar assim é absurdo e impossível, se existe completude e boa relação quando alguém supre a necessidade de outra pessoa, então não existe um laço de amor mútuo, mas de serviços e de conveniências, porque é muito fácil sentir algum afeto quando alguém está suprindo aquilo que falta em você. Chamam isso de jogos de interesses, muitas vezes.

A completude  pra algumas pessoas, acontece quando você se basta, quando não se precisa de um ser externo para se sentir inteiro, completo. E viver dessa maneira, permite que se extraia muito mais das vivências e das pessoas do caminho.

Marina errava ao tentar computar as gramas de sal que comia com Ana, fosse um ou dois quilos de sal que ela viesse a ingerir com ela em toda a sua caminhada, seria essa construção que lhe traria laços sinceros e fortes.

Todas as tentativas de criar algo, de desenvolver alguma coisa, como provocar algo como uma amizade, um afeto, um conhecer, não gera nada além da nossa própria distração, nos fazendo perder os detalhes do outro, nos fazendo perder o outro. Como o cigarro de Clarice que Ana lembrava dos seus trejeitos, porque ela não estava preocupada em conhecer Clarice, ela estava simplesmente conhecendo.

Dolores levou Ana até Marina, Marina acabou levando Ana até Clarice e todas essas três adoravam o silêncio e o jeito desmedido de Dolores ser incomum, sempre observando e absorvendo tudo, dolorida muitas vezes, demonstrava pouco seus afetos, mas todas sabiam que ela era muito sentimental e um pouco vingativa também. Todos os dias Dolores construía um pedaço de vida nas suas relações humanas, assentando tijolo por tijolo, colocando a massa, passando o esquadro pra tirar as bolhas de ar que se formam com o vento e a poeira. Não se importando com o quanto trabalho dê ou quantas vezes precise rever o lado do pincel que está usando ou a qualidade da tinta que está passando nas paredes, todos os dias, ela cuidadosamente constrói as suas relações com sinceridade, afinco e vontade de que essa construção se conclua em algo forte, duradouro, seguro, como coisas inabaláveis, que só são inabaláveis, pelas verdades que possuem dentro delas.

Quando você observar uma ponte que te ligue a alguém começar a se construir entre vocês, não se preocupe em sair correndo e pular da ponte tentando atravessar os pedaços que faltam, ao invés disso, edifique uma construção. Construa pedaço por pedaço das suas relações humanas, pra que quando você realmente acessar alguém, não exista o risco dessa relação ruir por não ter sido solidamente construída.

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