terça-feira, 3 de setembro de 2013

O menino, o barco e Deus



"Vida vento vela leva-me daqui" Belchior e Fagner

Todos os dias ele caminhava na praia e se postava ao mesmo lugar a observar toda aquela imensidão salgada. Era um menino calmo, de olhos fartos de mistério e indagações. Olhava para o mar que se estendia a sua frente como quem vê muito além de todo aquele fluir de ondas constantes.
Certa manhã, enquanto olhava, escorregou os olhos para as pedras que subiam rente as águas, eram muitos rochedos. E arrastando a visão, achou sobre suas madeixas acastanhadas, o céu – Azul e imenso.
Instantaneamente seus olhos ficaram turvos, encharcaram-se de lágrimas; Sentiu-as, mais salgadas que as ondas insistentes, dançando a mesma valsa, indo e vindo.
Pensou em escorrer os dedos e limpar as gotas, mas ao perceber que vazariam muitas outras além daquelas, deixou que o rosto encharcasse. Fechou os olhos na tentativa de olhar dentro de si mesmo, como quem abre a porta de seu próprio ser, verificando as quantas inconstâncias e questionamentos habitavam nele.
Era menino ainda, mas duvidava que houvesse alguém com mais insatisfações por dentro do que ele. E após lavar as pupilas com suas lágrimas de sal, voltou a mirar o mar, deixando os olhos, irem muito mais além.
Olhou na beira do cais e viu, em meio a grandes barcos, navios e outros barcos maiores, um barquinho pequeno e sem vela.Caminhou em passos calmos até lá, como quem caminha em direção a nada – Os olhos vazios.
Entrou no barquinho – Sentou-se e tomou os remos. Foi remando, remando e remando até se cansar e adormecer por sobre o vai e vem das ondas.

Remava na direção do horizonte, com a intenção de alcançar o céu na outra margem – Precisava falar seriamente com Deus.

7 comentários:

Rodolpho Padovani disse...

Eu me sinto como esse menino às vezes, perdido no meio do mar, deixando as ondas me levarem e esperando falar com Deus, um dia a gente consegue.
Adorei esse Tati, deu pra sentir o mar aqui.

Bjs =)

Inercya disse...

Me deu vontade de ir observar toda essa imensidão salgada.
"Remava na direção do horizonte, com a intenção de alcançar o céu na outra margem" - me encantei com isso. ^^

Ah, fiquei feliz por estar de volta e ter a paciencia de ler os meus textos haha
:*

Clara disse...

Que triste, Tati... Tomara que tenha passado essa onda de desânimo de você. Achei lindas as sensações do menino, amo o mar, o céu e acho que se eu tivesse um mar alcançável, ele seria meu refúgio pra chorar as mágoas também.

:) Bjos!

Babizinha disse...

Agora como leitora lhe digo: ficou lindamente triste. Às vezes, esse sentimento também me visita - estar tão perdida que Deus há de me encontrar para um pequeno conselho amigo. No final, são textos como os seus que nos dão conforto; a mão amiga que Ele nos envia.

Beijos
:*

Grafite disse...

o texto me prendeu em cada palavra...
muito bom! adorei...

beijo.

Bill Falcão disse...

Garoto esperto, esse aí!
Bjoo!!

Rebeca Postigo disse...

Fazia tempo que eu não dava as caras por aqui...
E agora chego e me deparo com isso...
Tati...
Não tenho palavras...
Adorei!!!

Bjs