segunda-feira, 12 de março de 2012

Das compreensões que chegam com o tempo




Ela que sempre buscava o porquê das coisas, agora andava lenta – forçando a mente a compreender o que seria exatamente o escape.
Já havia escutado uma dezena de pessoas, falar a respeito disso; escape – mas não conseguia compreender bem o que seria e nem tampouco fazia ideia de como isso – esse tal escape – alcançaria sua vida.

Era setembro, dia primeiro exatamente. Ela havia chegado exausta do trabalho, os pés cansados, a cabeça já pendendo para o lado – precisava de um banho e do fim daquele mês. Já sentia antecipadamente todas as dores das datas que ia chegar.
Entrou em casa desatenta, descalçou os sapatos e então quando ia para o chuveiro sua mãe chamou-lhe.

- Filha, vem ver uma coisa aqui na cozinha.

Suspirando, foi.

- O que é mãe? – a menina lhe indagou.

E a mãe por sua vez, lhe disse; - Olhe ali naquela caixinha!

E ela olhou.

Seus olhos se encheram d’água. A criaturinha não possuía nem 30 dias ainda;

 - Como alguém pode abandonar uma coisa dessas? - ela pensou, e cheia de compaixão o tomou nos braços e o acariciou – sentiu sua boca procurar seus dedos, sugando como se fosse o bico do seio de sua mãe e ela riu de toda aquela ternura. A mãe lhe estendeu a mamadeira e a menina o amamentou.

Naquele dia, ela deixou o banho pra bem mais tarde, se permitiu ficar ali, o vendo naquela tentativa deliciosa de firmar as patinhas tentando manter-se em pé. A menina sorria enquanto ele se enfiava embaixo de suas coxas. Ele a amou. Ela o amou.


Seis meses se passaram desde aquele setembro e ele cresce com os cuidados dela.  E toda a ternura que setembro trouxe através dos olhos dele, hoje a faz entender.

As ternuras futuras, os acontecimentos incabíveis e inaceitáveis da vida – o abandono que ocorre por um lado, que permite o amparo do outro, nos mostra, nos traz, é muitas vezes, o escape que a vida nos oferece, que a vida nos envia.

Ela entendeu.



4 comentários:

Rodolpho Padovani disse...

Por que, às vezes, quando achamos que estamos salvando o outro, é exatamente o contrário. A vida tem dessas surpresas e elas são tão lindas.

Inspirador como sempre por aqui.

Beijo.

Fabi disse...

Deus sempre faz dessas coisas... Ando a esperar por um novo scape, pois minhas opções estão se esgotando em direção ao limite.

Abraço grande!

Rebeca Postigo disse...

Nem tudo parece certo no momento, mas as coisas se encaixam com o tempo...
Só o tempo pode coloca-las no lugar...

Bjs!!!

Babi Farias disse...

Seus últimos textos andam enchendo meus olhos d'água, Ta-ti, e esse em especial algumas até escapuliram... São dessas sutilezas da vida que nos fazem bem e mostram que há um Deus vivo encaminhando cada coisa em seu devido tempo para alegrar nossos dias. Quem diria que Nino seria uma bênção.

Um cheiro, pretinha.